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Paulo Guedes, o alter ego liberal de Bolsonaro

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José Fucs 03/12/2017, 03h30 O que pensa o economista que poderá ser ministro da Fazenda caso o pré-candidato vença eleições em 2018

(Foto: Silvia Costanti/Valor/Agência O Globo)

Se dependesse só dele mesmo, o deputado Jair Bolsonaro, virtual candidato à presidência em 2018, levaria, provavelmente, a vida toda para tentar convencer os eleitores de que a sua propalada conversão ao liberalismo econômico é para valer. Ainda assim, ao final, talvez ele não conseguisse se dissociar totalmente do nacional-desenvolvimentismo, de viés estatizante, que marcou a sua trajetória política, cujos traços ainda estão presentes em suas declarações mais recentes sobre a economia, apesar do esforço que têm feito para dissimulá-los.

Mas, na semana passada, a guinada liberal de Bolsonaro recebeu um impulso inesperado. De repente, deixou de ser apenas um discurso eleitoreiro para ganhar mais consistência. Ao revelar que estava “namorando” com o economista Paulo Guedes e que ele poderá ser o seu ministro da Fazenda caso vença as eleições, Bolsonaro conseguiu criar um fato novo, que pode lhe render preciosos dividendos em sua tentativa de se apresentar como um “cristão novo” do liberalismo econômico. Pode representar também um atalho importante para ele conquistar uma parte da classe média e da direita liberal, que resistem à sua candidatura, entre outras razões, pelas suas posições históricas em defesa do fracassado modelo desenvolvimentista adotado pelo regime militar, que os governos do PT, a partir do segundo mandato de Lula, tentaram reproduzir.

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É difícil dizer se esse “noivado hétero”, como afirmou Bolsonaro, ou o “encontro da ordem com o progresso”, como declarou Paulo Guedes, ao confirmar ao ter mantido “duas conversas” com o deputado, vai virar casamento. Alguns analistas, como o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e hoje responsável pela fundação do Partido Novo, dizem que Guedes “conversa com todo mundo” e que os contatos com Bolsonaro darão em nada. Para reforlçar sua percepção, Franco lembra o que aconteceu em 2015, quando Guedes foi convidado para um jantar no Palácio da Alvorada com a ex-presidente Dilma Rousseff, que queria sondá-lo para substituir o então ministro da Fazenda Joaquim Levy. As negociações, como se sabe, não evoluíram e ele nunca ocupou o cargo.

Outros questionam se, num eventual governo Bolsonaro, Guedes teria a autonomia necessária para implementar as suas ideias, embora quem o conheça bem afirme não acreditar que ele se sujeitaria a ir para a Fazenda sem ter carta branca para trabalhar. De acordo com o economista Rodrigo Constantino, um dos trombones da chamada “nova direita”, que surgiu no País nos últimos anos, e seu pupilo no Banco Pactual (hoje BTG Pactual), do qual Guedes foi um dos fundadores, em 1983, ele “não aceitaria ser marionete de ninguém”.

Por ora, o que dá para afirmar com segurança é que Bolsonaro não poderia ter escolhido um nome melhor em sua tentativa de dar alguma credibilidade à sua conversão liberal. Presidente do Conselho de Administração e sócio da Bozano Invesmentos, voltada para a compra de participações em empresas, Guedes, de 68 anos, é hoje, talvez, o mais liberal dos economistas brasileiros, embora não goste de se definir como tal.

Confira as ideias de Paulo Guedes em 35 frases selecionadas pelo blog

Ph.D. em economia pela Universidade de Chicago, o templo do liberalismo global, e também um dos fundadores do Instituto Millenium, um centro de divulgação do pensamento liberal no País, ele poderá conferir um verniz à candidatura de Bolsonaro inimaginável alguns dias atrás. “O Paulo Guedes é um craque”, costuma dizer o economista Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura, ao ser questionado sobre ele.

Antes de se aproximar de Bolsonaro, Guedes estimulou o apresentador Luciano Huck, com quem manteve contato permanente desde 2016, a entrar para a política, por acreditar que a desconfiança da população nos políticos tradicionais e os escândalos em série de corrupçã, envolvolvendo as mais altas autoridades da República, deverão favorecer a eleição de um “ousider” no ano que vem. Mas Huck, pressionado pela TV Globo, que exigia uma rápida definição entre a sequência de sua carreira artística e o seu ingresso na política, anunciou na semana passada a decisão de não se candidatar à presidência em 2018. Sua desistência, amadurecida na útlimas semanas, talvez possa fortalecer a aproximação de Guedes e Bolsonaro, que aconteceu, por solicitação do deputado, quando o economista ainda estava apoiando a candidatura de Huck.

Apesar de acreditar que a liberalização da economia é a melhor forma de promover o aumento da riqueza das nações e a prosperidade geral, Guedes não se considera discípulo de grandes economistas liberais do século 20, como Milton Friedman, Frederick Hayek e Ludwig Von Mises. Ele cultiva uma independência intelectual que o afasta das ideias convencionais dos liberais brasileiros e nunca se filiou a um partido político. “Eu não me confino em nenhuma caixa”, afirma. “A liberdade intelectual é o valor que mais prezo.”

Em sua opinião, a divisão política tradicional entre esquerda e direita não faz mais sentido hoje no País. “O aperfeiçoamento das instituições de uma democracia emergente como a nossa é mais importante do que as obsoletas disputas ideológicas entre esquerda e direita, conservadores e progressistas, liberais e socialistas”, diz. “A direita brasileira afundou com a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A esquerda afunda agora com a morte da ‘velha política’ por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República.”

Guedes se diz adepto do que chama de uma “sociedade aberta”, a expressão eternizada pelo filósofo Karl Popper (1902-1994), que procura mesclar a eficiência do mercado com a fraternidade e a solidariedade. “A grande sociedade aberta está além da direita e da esquerda. Quem ainda se preocupa com isso está vivendo na Revolução Francesa, no século 18.”.

Segundo ele, uma das grandes lacunas do pensamento liberal é não valorizar a solidariedade como a liberdade. “O que o socialismo tem de poderoso, tribal, secular? A solidariedade”, afirma. “Por que o Lula foi eleito duas vezes e foi o grande responsável pela eleição da Dilma duas vezes também? Porque ele entendeu que a solidariedade é fundamental. Se os liberais não entenderem que a solidariedade é tão importante quanto a liberdade, vão continuar a ser assassinados politicamente.”

Ao contrário da maioria de seus pares mais à direita, Guedes não acredita que a inclusão de uma série de direitos sociais na Constituição de 1988 esteja no centro dos atuais problemas econômicos do País. “É compreensível que tenha havido pressões orçamentárias numa democracia emergente e também uma tentativa de descentralização dos recursos. Foram anos de subinvestimento em capital humano e de recursos centralizados sob o Antigo Regime”, diz. “Para enfrentar as novas demandas, o certo era ter feito as reformas estruturais na economia e a mudança do regime fiscal, que não ocorreram”

Essa visão não o impede de ser um crítico implacável dos governos social-democratas do PT, do PSDB e do PMDB, que controlam o País desde a redemocratização, em meados dos anos 1980. “Esses social-democratas…”, costuma dizer, com ironia, ao falar dos erros que cometeram na economia. Ele responsabiliza os economistas tucanos por não terem promovido o ajuste fiscal necessário após a implantação do Plano Real, obrigando o Banco Central (BC) a manter os juros na estratosfera, com resultados perversos para a dívida pública, que explodiu no período. “Foi aí que apareceu o grande desequilíbrio patrimonial brasileiro”, afirma. “Os economistas do PSDB erraram demais. O PT só ‘agudizou’ o problema.”

Em sua percepção, isso levou ainda a uma escalada das despesas com o pagamento dos juros da dívida, para centenas de bilhões de reais ao ano, que poderiam ser aplicados em saúde e educação. Levou também ao aumento dramático da carga tributária no País, de 25%, no fim do governo militar, para quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo ele, incluindo os juros da dívida.

“A incapacidade de controlar gastos e de promover reformas trouxe como subproduto uma tragédia de dimensões épicas: os esforços de estabilização sem apoio da política fiscal elevaram as taxas de juros por décadas, causando um endividamento interno em bola de neve”, diz. “Políticas econômicas ineptas, como os esforços de estabilização sem a mudança do regime fiscal, derrubaram o crescimento do país, enquanto alianças políticas espúrias pela ocupação de um obsoleto aparelho de Estado promoviam a roubalheira sistêmica. Precisamos agora superar a farsa política das repetidas disputas entre as mesmas correntes da social-democracia.”

Também pela questão fiscal e pelos congelamentos inócuos de preços e salários, Guedes foi um opositor aguerrido das bruxarias heterodoxas destinadas a debelar a inflação, que funcionavam como anestésicos de curta duração e não atacavam o foco principal da doença, que eram os gastos públicos sem lastro. Ele conta que, no Plano Cruzado, nos anos 1980, quando era o principal acionista do Ibmec, a escola pioneira na oferta de MBA Executivo em Finanças no Brasil, o então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, cortou a isenção tributária da instituição, que funcionava como organização sem fins lucrativos, como a quase totalidade das escolas, faculdades e universidades, em retaliação às suas críticas.

Ao contrário de Bolsonaro, porém, Guedes dispara seus petardos também contra os militares, especialmente contra o governo Geisel (1974-1979), quando, em sua opinião, surgiu o fosso fiscal que resultou na hiperinflação registrada nos anos 1980 e início dos anos 1990. “Houve um endividamento externo excessivo, programas equivocados, muita ênfase na estrutura física e quase nada em saúde e educação, que é algo típico de uma sociedade politicamente fechada.”

Defensor intransigente das reformas – a da Previdência, a trabalhista e a tributária – e da privatização total de estatais, Paulo Guedes alimenta o sonho de promover uma mudança radical na gestão econômica do País. Para ele, “o coração do problema brasileiro está no gasto público” e sem a realização de um profundo ajuste fiscal o Brasil não conseguirá entrar na trilha no desenvolvimento sustentável.

“O programa de uma campanha presidencial para as eleições de 2018 terá de enfrentar os temas que descredenciaram candidatos e partidos da ‘velha política’. O enigma que devorou a classe política e degenerou a democracia emergente é que o governo gasta muito e gasta mal”, afirma. “O caminho para a recuperação da dinâmica de crescimento econômico e a regeneração da classe política passa pelo aperfeiçoamento das instituições republicanas e pelo aprofundamento das reformas.”

Guedes considera a Lava Jato “o mais importante episódio de aperfeiçoamento institucional desde a redemocratização” e acredita que ela deverá levar a uma mudança significativa na arena política do País. “A morte da ‘velha política’ agora em 2017 marca o fim de uma era, e as campanhas eleitorais em 2018 selarão o nascimento da ‘nova política”, diz. “A classe política não representa mais o povo, e sim seus próprios interesses. E os empresários não criam mais riqueza, apenas dela se apropriam em negociatas com o poder político.”

Na contramão de muitos economistas, em especial os ligados a organizações e partidos de esquerda, Guedes não considera um problema grave o impacto das denúncias de corrupção em grandes empresas e na economia como um todo. “Os corruptos destroem muito mais do que escolas, hospitais e outros serviços essenciais não prestados pelos recursos que desviaram. Destroem também a crença da população nas instituições das modernas democracias liberais”, afirma. “Prefiro gerar 30 milhões de empregos porque baixaram os encargos trabalhistas do que ganhar alguns empregos porque meia dúzia de empreiteiras estava corrompendo o governo. Isso não é nem capitalismo de Estado, que é quando as práticas morais são sérias, é capitalismo de quadrilha.”

Ainda hoje, quase 30 anos depois, ele fala com entusiasmo do plano de governo que elaborou para o empresário Guilherme Afif Domingos, candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL), nas eleições de 1989. Cinco anos antes do real, seu plano previa, entre outras medidas, a independência do Banco Central, a adoção do câmbio flexível, a realização das reformas estruturais, a descentralização de recursos para Estados e municípios, o corte de subsídios e de funcionários públicos e a privatização de todas as estatais. Previa, também, a implantação do “orçamento de base zero”, no qual cada despesa precisa ser explicitamente aprovada anualmente, sem levar em conta o orçamento do ano anterior, ao contrário do que acontece hoje.

A ideia era usar a privatização, a ser realizada em apenas seis meses, para liquidar a dívida interna. Na época, de acordo com os cálculos de Guedes, o valor das participações acionárias do governo nas estatais seria suficiente para pagar toda dívida interna. Em relação à dívida externa, a proposta era realizar leilões de reservas cambiais a cada seis meses e usar os recursos para serem usados na compra de títulos da dívida, com deságio, que alcançava cerca de 60% frente ao valor de face.

O plano previa ainda a realização de uma reforma da Previdência semelhante à que foi feita por Milton Friedman no Chile, nos anos 1970, com a criação de contas individuais para os segurados, que permitiu ao país se tornar uma “máquina de crescimento”. Com isso, de acordo com Guedes, seria possível viabilizar um corte significativo nos juros, o aumento dos investimentos privados e garantir o crescimento sustentável do País por anos a fio. “Se eu tivesse que fazer uma única mudança seria a reforma da Previdência, porque o déficit sobe de R$ 50 bilhões para R$ 80 bilhões num ano, para R$ 130 bilhões no outro, é uma bola de neve que vai explodir o Brasil inteiro.”

Com sua trajetória invejável, uma inquietação intelectual capaz de produzir soluções inovadoras e o respeito de políticos, empresários e financistas, muita gente se pergunta o que teria levado Paulo Guedes a se aproximação de Bolsonaro. Talvez, por nunca ter ocupado um cargo público ou participado de qualquer governo, ele queira, mais uma vez, tentar colocar em prática seu plano para o Brasil, como o que produziu para Afif, que acabou engavetado, e Bolsonaro o tenha seduzido ao acenar com essa possibilidade. Mas a campanha está só começando e muita coisa ainda deve acontecer até as eleições. Só então será possível saber se a dupla vai mesmo subir no altar.

R$ 130.000.000.000,00 = 1.577.555 Ambulâncias
Linhas existentes - 335 km
Linhas que poderiam existir - 934 km
N

São Paulo

10 km
Vacinas dos últimos anos
Vacinas que poderiam ser compradas
Aedes aegypti - transmissor da Dengue / Chicungunya / Zica
Nº de repelente
14.964 casos de 2013 a 2016
1.125 cartelas de Tamiflu
225 casos por H1N1
Foto: André Dusek | Fonte base conversão: Estadão

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Fonte base conversão: Estadão
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